Sofro
Ao tentar entender
O que me falta coragem
Para perguntar.

Falho
Em decifrar
Sinais que você claramente
Oculta.

E mais uma vez
Fico a mercê
Do tempo
A varrer
A angústia 
Em ser sobra
Aonde sobra: falta.

 

Quantas vezes eu já me afoguei em solidão?
quantas vezes me perdi
em busca do pertencer?

São tantas as vezes que me senti peça solta
sobrando em um quebra- cabeça já montado
Que já deveria saber de cor
A habitar a carta fora do baralho


Você voltou
Pra ir embora
E por mais que doa menos
do que na primeira vez
Eu ainda me pego pensando
em como seria
se você decidisse ficar.

 

Se eu pudesse morar naquele dia, eu moraria.
Repetiria cada fração de segundo. Demoraria em cada riso.
Pausaria no instante daquele parapeito. Esticaria os minutos e atrasava os ponteiros. 
Aterraria os pés na areia, e ficaria mais. Prolongaria o meu olhar ali, bem aonde ele gostaria de estar estacionado agora.
Eu voltaria, e faria tudo exatamente igual, assim como tenho feito, em pensamento, nas inúmeras vezes que aquela música e aquela manhã se repetem e se repetem em minha mente.


Outra vida,
depois daquele abraço
Depois da frase
que nos despiu
de adereços
e fez nos escancararmos
e sermos nós
a sós
pela primeira vez.
 Você chegou
E foi embora tão rápido 
Que nem deu tempo
De eu perceber
A falta que faria

Porque naquele tempo
Eu nem sabia
Que eu em poucos segundos
Eu guardaria tanta lembrança.

 

A vida rodopiou sobre os meus rascunhos de planos. Mostrou que apesar das rédeas, que vez ou outra acredito ter em mãos, os caminhos que eu percorro, é ela quem dita. Posso até escolher coragem ao caminhar meus passos, ter ousadia em uma madrugada saudosa, frear os que não me fazem bem ou rabiscar os poemas que quero esquecer. 
Posso sim, escolher o lá ou cá. Ficar ou ir. 
Posso mudar de cidade. De rumo. De planos.
Posso prometer não mais apaixonar-me. Prometer não mais sofrer, não mais doar-me tanto ao que não me pertence.
Só não posso, acreditar em todas essas promessas.
Porque, todo esse controle, ilusório, voa pelo ar, quando a vida me puxa o a tapete para dizer, que não, não é lá que eu devo estar. Que não, não vai certo. Que não vai acontecer. 
Que eu devo então, escolher um outro sapato, para caminhar um outro caminho, que me leve sabe lá a que outro lugar. Ou a alguém. E que talvez, esse outro seja apenas passagem, para o que ainda há de vir.

Porque eu nunca vou saber, em passo a vida vai estar.
E só me resta caminhar.
Sinto-me só
pobre de compatibilidades
e afinidades
o público lá fora
que tanto me cerca
e nada desperta
as pessoas
que vão e vem
num ciclo monótono
de não sair da superfície
Sinto-me vazia
Mas sigo
em busca do que me arrepia.
 Longos e longos monólogos
Comigo
Tentando entender
como vestir-se de mim
depois depois de um tempo
habitando o lado de fora.
 E assim
Num estrondo
A saudade arrombou a porta do quarto
Colocou o lençol pro lado
e deitou-se comigo

Sussurrou no meu ouvido
Memórias
Que eu já tinha estancado

E assim
Sem aviso
Recaí em lembranças
No vazio da cama
Relutando a adormecer
Para te sonhar.

 A escrita não é o refúgio,
Ainda que soe como tal
A escrita
transforma em palavras
meus sentimentos
sem tradução

E assim,
os reconheço.

Existe um espaço de quietude depois da emersão. 
Um silêncio.
Retorno de um mergulho muito fundo. 
E os últimos dias foram como aqueles momentos que antecedem a saída à superfície quando você erra o calculo e acaba por ficar mais tempo do que o esperado sem ar.

Sou recepcionada pelo balanço calmo das ondas
O que me causa estranheza
Respiro, ainda sem saber como voltar a margem.
Não sei se quero,
E os resquícios de esperança, que sempre me nutrem, atrasam o meu retorno.